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Ilustração por Cecilia Marins

Anas e mias: as borboletas do Twitter

Por meio de hashtag no Twitter, garotas trocam experiências sobre distúrbios alimentares

Por Sabryna Monteiro e Beatriz Pansani Coletti

Publicado em 18 de novembro de 2019

Cintura fina. Pulsos finos. Quadril estreito e bem definido. Menos gordura e mais massa muscular. Na cultura brasileira globalizada, a representação do corpo belo está diretamente ligada à silhuetas magras e bem delineadas. É por isso que, nessa mesma cultura - na qual estamos 24 horas por dia imersos em dietas radicais e closes de artistas com corpos magérrimos - a pressão para se enquadrar neste padrão físico recai principalmente sobre as mulheres, podendo ocasionar o desenvolvimento de doenças psíquicas.

Segundo uma pesquisa realizada em 2017 pela Royal Society for Public Health, instituição de saúde pública do Reino Unido, as redes sociais são mais viciantes que o álcool e o cigarro - fato que potencializa a vulnerabilidade do estado de saúde mental da população. O estudo mostra ainda que 90% das pessoas analisadas, com idade entre 14 e 24 anos, são usuárias de redes sociais e que as taxas de ansiedade e depressão nessa parcela da população aumentaram 70% nos últimos 25 anos.

Ilustração por pikisuperstar / Freepik

Com todos os estereótipos que disseminam, as mídias sociais são um terreno cheio de gatilhos para doenças psíquicas. Blogueiras, modelos e atrizes com corpos cada vez mais magros compartilham sua rotina de alimentação dos sonhos construindo um universo utópico para todas que desejam a vida e a estética consideradas perfeitas. Psicólogos veem que, neste aspecto, as redes possuem um impacto negativo nas mulheres que buscam restringir a alimentação para atingir o “corpo perfeito” dessas role models.

Das tentativas de alcançar metas de emagrecimento e, consequentemente, se sentir parte da sociedade, pode surgir um transtorno alimentar. E mais, nascer um novo estilo de vida pautado em metas de peso, jejuns intermitentes, dietas restritivas e carga excessiva de exercícios físicos. Meninas que se encontram nessa situação geralmente procuram um refúgio onde possam compartilhar sua rotina, seus ganhos, suas perdas, e encontrar pessoas que dividam os mesmos sentimentos que elas. Não uma novidade, este espaço são as redes sociais.

E é a partir delas que nascem, então, comunidades para compartilhar esse tipo de conteúdo. Uma delas, ativa principalmente no Twitter, é conhecida pela hashtag #borboletanas.

O Movimento

Meninas jovens, com idade entre 12 e 24 anos, que sofrem de distúrbios alimentares, utilizam a hashtag do Twitter para falar sobre sua rotina de anorexia e bulimia nervosas. Por meio de uma linguagem própria, elas relatam o que comem, dão dicas de remédios laxativos e exercícios físicos, compartilham recordes conquistados de jejum e metas para atingir um peso ideal.

Criadas a partir da própria hashtag, agora as #borboletanas são uma comunidade, um ambiente em que garotas se identificam umas com as outras e se sentem confortáveis para compartilhar seus anseios e sentimentos diários com os distúrbios. Para isso, procuram manter um padrão de linguagem, utilizando expressões abreviadas, como por exemplo, t.a., n.f., p.i., p.a., m.f., recovery, thinspo e edtwt.

Confira as definições em nosso glossário.

Mas por que borboletanas? Ao dividir a palavra em duas partes, teremos uma etimologia composta por “borboleta” e um sufixo “ana”. Anas são as garotas que sofrem de anorexia. Elas, como seguidoras da hashtag, consideram o corpo de uma borboleta o exemplo de perfeição: fino e longo. E, por isso, o associam como modelo para a vida real. 

Depois, a borboleta é o símbolo da transformação, analogamente comparada com a mudança corporal esperada por essas garotas.

“Esse termo borboletanas é um jogo de palavras… Somos pessoas que não se conhecem que nos sentimos livres para compartilhar nossas frustrações ou histórias aqui”

Usuária do Twitter, seguidora da #borboletana. Preferiu não ser identificada.

“Eu me sinto meio exposta quando uso as tags e algumas palavras-chave. Parece que vão me descobrir a qualquer momento e eu prezo muito pelo sigilo da minha identidade”

Usuária do Twitter, seguidora da #borboletana. Preferiu não ser identificada.

Quem descobriu e trouxe o debate das borboletanas à tona foi uma empresa brasileira especializada em estratégias digitais. Durante um monitoramento no Twitter, a empresa iCustomer, pertencente ao grupo Plusoft de Comunicação, identificou, por acaso, vários perfis de meninas com distúrbios alimentares que usavam expressões e uma linguagem própria para falar sobre sua rotina e a doença.

A pesquisa que a empresa estava destinada a fazer tratava de uma análise da comunicação sobre temas de saúde com o objetivo de ressaltar a importância do uso de soluções em monitoramento de mídias sociais para outras companhias, instituições e até marcas.

O material divulgado pela empresa relata que a hashtag borboletana nasceu e se propagou no Twitter como um código secreto utilizado por meninas que apoiam a anorexia: “A iCustomer monitorou o Twitter durante um mês, entre maio e junho deste ano [2017], e descobriu vários códigos e hashtags usados para falar sobre a doença. Foram 28 mil menções de 11 mil meninas entre 12 e 20 anos contando detalhes do que fazem para se manterem magras. No Brasil, os tweets alcançaram 1,7 milhão de pessoas. O que chamou a atenção dos analistas foi a massiva repetição da hashtag borboletana, que faz alusão à doença” 

Informações coletadas por ferramentas de análise de dados de redes sociais fornecem um panorama de que a hashtag tem crescido cada vez mais em paralelo às comunidades associadas do Twitter, como #thinkanamia, #anamia e #thinspo.

Um teste de mapeamento de dados da hashtag borboletanas por meio da ferramenta Key Hole apontou que, em apenas dez dias de monitoramento, foram detectadas 200 publicações, 109 usuários associados à hashtag e 18.639 pessoas alcançadas pelos posts e keywords das borboletanas. Além disso, o levantamento mostrou que 92,86% do público atingido é feminino, e que mais da metade dos posts analisados são retweets, enquanto as publicações originais somam apenas 41,71% do total de publicações.

O que dizem os especialistas?

Para a psicóloga de família e voluntária do Programa de Transtornos Alimentares - Ambulim - do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Cláudia Regina, comunidades como as borboletanas surgem quando as pessoas procuram seus iguais, porque “falam de um lugar já conhecido” de quem busca compartilhar informações. “Quem está propagando esse tipo de informação já está na doença e acaba achando que pode ajudar outras pessoas. Só que da mesma forma que [essa pessoa] perdeu, possivelmente, o controle sobre si, ela ajuda outras pessoas a entrarem nesse mesmo movimento”, explica. 

Em entrevista, Cláudia explica que quem entra para o tipo de comunidade como as borboletanas, está no auge da doença:

BorboletanasCláudia Regina

Segundo a psicóloga Roberta Cristina Maia, a anorexia nervosa consiste em um distúrbio alimentar em que a pessoa se recusa a comer, mesmo sentindo fome. As principais causas são o desejo pelo corpo magro, o alto nível de ansiedade e também de estresse. Todos estes levam à atitude de recusa à alimentação. Os principais sintomas são o medo de ganhar peso, distorção de imagem corporal, transtorno de ansiedade e depressão.

Já a bulimia nervosa pode acontecer de forma isolada ou estar associada à anorexia. Segundo a Dra. Nutricionista Paola Machado, que é colunista do blog Viva Bem, do portal UOL, a bulimia nervosa pode se manifestar de duas formas: não purgativa, em que o indivíduo não se envolve regularmente com a autoindução do vômito; ou purgativa, quando o indivíduo apresenta quadros de autoindução de vômito acompanhados do uso indevido de medicamentos laxantes e diuréticos. Os principais sintomas são: comportamentos alimentares compulsivos associados a atitudes de compensação - como a provocação do vômito -, medo de ganhar peso, variação brusca de humor, depressão, ansiedade e distorção da imagem corporal.

As principais dicas para começar um tratamento são: procure um profissional da saúde. Psicólogos, nutricionistas, terapeutas e psiquiatras poderão ajudar. Não sinta medo de contar com o apoio de amigos e familiares. Converse com quem já passou pelo tratamento e se inspire para sua recuperação. Além disso, faça o exercício de se desligar das redes sociais o máximo que conseguir durante o dia.

Confira mais dicas em nossa matéria Tratamento. E, caso prefira, nós também podemos te ajudar. Escreva em nosso chat.

A mídia

De acordo com o artigo do nutricionista Lucas Rocha de Mesquita, “Movimento pró-ana e pró-mia na internet: uma análise a partir dos webblogs brasileiros”, publicado na Revista Núcleo do Conhecimento, que reúne mensalmente textos científicos e multidisciplinares de especialistas da área médica:

“a influência da internet no desenvolvimento de transtornos alimentares baseia-se no fato dos usuários verem e disseminarem estes transtornos como estilo de vida e não como uma patologia. O crescimento de comunidades nas redes sociais, que tratam os transtornos alimentares como um estilo de vida, representa um importante problema de saúde pública, dado as consequências associadas tais como a influência destas informações sob o desenvolvimento destes transtornos em pessoas predispostas”

Os perfis da comunidade borboletana colocam a expressão not pro em suas bios, declarando-se não apoiadores e incentivadores dos distúrbios. De acordo com o Netlytic, ferramenta de análise de redes sociais ativas na internet, 91% dos perfis que têm alguma similaridade ou associação com o termo borboletanas declara-se não apoiador e incentivador dos distúrbios alimentares. Contudo, apenas por dissiparem seu estilo de vida, acabam incentivando garotas que procuram inspiração, ou mesmo ajuda, na hashtag.

Precisa de ajuda ou quer ajudar um(a) conhecido(a)?

Acesse nossa página Ajuda e confira os contatos de instituições em capitais brasileiras; veja também algumas dicas de atitudes que podem auxiliar outras pessoas com distúrbios alimentares.

Trabalho de Conclusão de Curso . Faculdade Cásper Líbero . 2019

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