Tratamento
O Casulo: um caminho intenso e delicado para a recuperação
Por Sabryna Monteiro e Beatriz Pansani Coletti
Publicado em 18 de novembro de 2019
“Nem todos os dias você vai comer pão fresquinho, tem dias que você come pão adormecido, no outro pão duro, só não podemos esquecer dos dias de pães quentinhos e fofinhos, deixando a peteca cair” – Renata Contente
Por mais que a conscientização a respeito dos distúrbios alimentares seja mais do que necessária através da informação, pouco se sabe sobre o tratamento para essas doenças psicológicos. O Governo Federal, por exemplo, tem uma Política Pública voltada para a saúde mental, que acolhe tanto casos de pessoas com “necessidades relacionadas à saúde mental” quanto pessoas “com casos nocivos de dependência de substâncias psicoativas”. A Política Nacional de Saúde Mental, coordenada pelo Ministério da Saúde, tem em suas diretrizes princípios que visam acolher tanto o paciente quanto seus familiares, através de Centros de Atenção Psicossocial, Unidades de Acolhimento, Serviços Residenciais Terapêuticos, Comunidades Terapêuticas e Enfermarias Especializadas em Hospitais Gerais.
Um dos centros de tratamento especializado é o Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Ambulim). Lá, quem busca tratamento para transtornos alimentares pode encontrar todos – ou quase todos – os serviços estipulados pela Política Nacional de Saúde Mental, deparando-se com uma equipe multidisciplinar composta por médicos psiquiatras, nutricionistas, psicólogos, terapeutas familiares e educadores físicos. Essas especialidades são divididas em departamentos específicos, entre eles: o Ambulatório de Atendimento para Homens com Transtornos Alimentares; a Enfermaria de Transtornos Alimentares, que é a única do país; o Hospital-Dia, que evita a internação e afastamento dos familiares, criado em 2000 e o 1º do Brasil especializado em t.a; Grupo de Estudos em Comer Compulsivo e Obesidade (Grecco); Ambulatório de Transtornos Alimentares da Infância e Adolescência (Protad).

Foto: Ambulim/Divulgação
No Protad, por exemplo, o processo de tratamento funciona da seguinte forma: é feita uma triagem, que encaminha crianças e jovens para atendimentos individuais com cada frente. Depois, são realizados grupos terapêuticos cognitivo-comportamentais e psicodinâmicos com os pacientes. Os pais e responsáveis também são acolhidos, como orientam as diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental, e envolvidos em todas as etapas do processo, contando, dentre outras coisas, com grupos psicoeducativos e psicodinâmicos voltados para mães e famílias.
O Protad, que abriu as portas em novembro de 2001, atendeu mais de 94 pacientes, cerca de um terço dos que já passaram pelos dez leitos do ambulatório, desde 1992, quando foi este criado.

O Ambulim acusa insuficiência no número de leitos disponibilizados pelo HC de São Paulo e reforça que, por isso, tem também um caráter educativo de profissionais e conscientização da população acerca do tratamento de distúrbios alimentares, como o Grecco, por exemplo, que se dedica ao estudo do comer compulsivo e obesidade. Frente às estatísticas sobre transtornos alimentares no Brasil e, principalmente no estado de São Paulo, os números do Ambulim ainda são baixos: segundo pesquisa apresentada pelo Nexo Jornal, 15% da população brasileira sofre de algum t.a e, de acordo com o Ministério da Saúde (2014), 77% das jovens entre 10 e 24 anos têm propensão a desenvolver algum tipo de distúrbio alimentar.
Os números são ainda menores, em relação ao tratamento, se analisado o gênero dos pacientes: dos 94 atendidos pelo Protad, por exemplo, apenas 11% deles eram do sexo masculino. Com a criação e maior divulgação do Ambulatório de Atendimento para Homens com Transtornos Alimentares, porém, esse número tem subido cada vez mais, como mostra o gráfico ao lado.
Dados: Ambulim e Folha de S. Paulo
O tratamento multidisciplinar oferecido no Ambulim é apontado como a chave para o sucesso do processo por Ismael Gomes Gadelha, psicólogo especialista em abordagem integral. Ao lado de sua irmã, a nutricionista Silvania Carvalho, e da psicóloga Cláudia Regina, que também atua no Ambulim, ele foi terapeuta de um grupo voltado para transtornos alimentares, em uma clínica particular na zona leste de São Paulo. Para o trio, o tratamento deve, acima de tudo, ressignificar a relação da pessoa com a comida e garantir a ela qualidade de vida. Nesta troca multidisciplinar, Ismael destaca que a busca por um sentido de vida é essencial:
“A pessoa deve buscar também, além de cuidar do próprio corpo físico em todos os aspectos – inclusive da qualidade de seu sono, um propósito para si. Então, o lado espiritual da roda da vida [conceito terapêutico que divide a vida em oito “áreas”] é um aspecto muito importante – espiritual, não na questão religiosa, mas como algo maior pela qual aquela pessoa esteja viva. Pode ser salvar o planeta ou dar uma vida feliz aos pais ou a si próprio”.
Silvania, nutricionista comportamental, destaca que o processo terapêutico pode se tornar esse “objetivo maior” e, para isso, é importante comemorar cada vitória. “Eu tenho pacientes que chegam a meu consultório bebendo dois copos de água por dia. Quando ele passa a tomar três, eu já celebro, porque para mim é uma grande vitória, e tira o peso das costas desse indivíduo”, observa. E completa: “quando um paciente que tem bulimia, por exemplo, consegue entender que, ao ingerir um alimento, suas calorias entram com ele, e não saem quando expurgados, ele começa a parar de provocar a saída dos alimentos do seu corpo. Isso para mim é a vitória. E aí, claro, que também é imprescindível o trabalho do terapeuta e da família”.
Para Mariana Barros, estudante de 20 anos, ter seus pais ao lado foi essencial para o processo terapêutico de cura da anorexia nervosa, diagnosticada aos 14 anos. “Foi muito tranquilo o apoio dos meus pais (...). Eu deixei só entre eles, até porque eu nunca senti necessidade de falar para outras pessoas. Mas eles ficaram bem do meu lado, não tiveram críticas. Eles me deram, e dão até hoje, todo o suporte que eu precisava. Foi bem tranquilo. Com bastante conversa e um olhar mais carinhoso”.
A partir de conversas com Maré, como é chamada Mariana, com a também estudante Larissa Machado, de 23 anos, e com a psicóloga Cláudia Regina, que atua no AMBULIM, a reportagem produziu o minidocumentário “Por dentro do Casulo”. O vídeo aborda os tipos de tratamento possíveis para transtornos alimentares. O curta traz uma visão de dentro do “casulo” terapêutico, tanto profissional quanto pessoalmente. Confira:
Mini documentário retrata a jornada de duas meninas quando diagnosticadas com transtorno alimentar