Body Positivity
Cada corpo um corpo
Por Sabryna Monteiro e Beatriz Pansani Coletti
Publicado em 18 de novembro de 2019

Ilustração: stockgiu / Freepik
Capas de revistas com modelos magérrimas, dicas de dietas milagrosas em tempo recorde e corpos sarados. Emagrecer nunca pareceu tão simples, e seguir as dicas disponíveis na internet fez com que discursos sobre corpos estereotipados fossem reforçados.
O nutricionista Lucas Rocha de Mesquita explica que, em tempos em que tudo o que se posta nas redes sociais parece ser legitimamente verdadeiro, perfis formadores de opinião somam seus seguidores à credibilidade de seu conteúdo. E, apesar de hoje os discursos de diversidade estarem em alta - uma vez que até então estiveram silenciados - esses efeitos de verdade, por meio da repetição e divulgação de estereótipos, não permitem que sejam a maioria.
Contudo, do lado oposto de onde circulam hashtags como as borboletanas, existem meninas que trabalham na “resistência”, lutando pela representação da diversidade na sociedade. Na faixa etária dos 20 aos 30 anos, mulheres utilizam as redes sociais para promover um movimento contra a estereotipação de corpos, identificado pelas hashtags body positivity e body positive.
Aqui, a coletividade é habitada por pessoas que levantam a bandeira da autoaceitação e rejeitam a estereotipação difundida nas redes sociais. O movimento body positivity, que em inglês quer dizer corpo positivo ou positividade corporal, busca fortalecer o amor próprio e promover a pluralidade da beleza. Com frases do tipo “Meu corpo, minhas regras” e “Cada corpo é um corpo”, contra os padrões de beleza impostos pela sociedade.
O movimento
O episódio que marca a primeira manifestação do movimento body positivity ainda divide opiniões. Contudo, a primeira atitude em prol do amor próprio que gerou maior reverberação na história, ocorreu nos Estados Unidos, no final da década de 1990, com a iniciativa de duas mulheres: Connie Sobczak e Elizabeth Scott. Tomando como base suas próprias experiências, elas fundaram uma organização sem fins lucrativos que ensinava as pessoas a ouvir seus corpos e prosperar sobre eles.
Com o objetivo de acabar com as consequências prejudiciais da imagem corporal negativa, geradas a partir de distúrbios alimentares, depressão, ansiedade e suicídio, por exemplo, em 2018, Connie e Elizabeth criaram o The Body Positive Institute, uma plataforma online que oferece cursos que ensinam competências para as pessoas que querem melhorar seu relacionamento com o corpo.
Ativistas, que até então não eram reconhecidas pela sua causa, começaram a exigir respeito não apenas para pessoas fora dos padrões de beleza, mas também para pessoas que ocupam outros espaços de invisibilidade, como transgêneros, pessoas com cicatrizes no corpo, ou com qualquer tipo de deficiência etc. Assim, o Body Positive foi crescendo e abraçando mais causas, ao mesmo tempo em que estruturava seu discurso - que ainda permanece polêmico - ajudando pessoas a superar seus conflitos com a aparência, para que possam viver uma vida mais leve e feliz consigo mesmas.
O Body Positivity só começou a ter maior reconhecimento quando as pessoas descobriram que uma de suas principais causas era a rejeição aos padrões de beleza - tão difundidos no mundo da moda. A saúde física e mental de artistas e modelos começou a ser questionada, e o assunto eclodiu na imprensa. A partir daí, doenças como os distúrbios alimentares se tornaram relevantes e, em vez de ativistas apenas lutarem pelo espaço das pessoas com um corpo ou aparência fora do padrão, desencadeou-se uma luta contra os corpos que eram considerados bonitos.
A ativista Renata Contente, paulistana e estudante de 23 anos, teve seu primeiro contato com a hashtag body positive aos 19 anos. Ela conta que depois de sofrer bullying desde sua infância e suportar a ‘culpa’ de ser diferente de suas amigas, entendeu que a aceitação do corpo se trata de um longo processo, e não de um fim. Diferente do que parece, o ato de aceitar o corpo não tem efeito imediato e muitas pessoas demoram, sequer entendem que estão doentes, e não vão buscar ajuda.
Depois de todo seu auto aprendizado e da orientação de uma psicóloga, Renata conta sobre os primeiros passos rumo ao amor próprio:
Um teste de mapeamento de dados realizado pela ferramenta Key Hole apontou que, em apenas dez dias de monitoramento, foram detectadas 244 publicações feitas com a hashtag body positivity e 521.893 pessoas alcançadas pelos posts e keywords associados ao movimento. Além disso, o levantamento mostrou que 71% do público atingido é feminino, que o país com maior número de pessoas que postam sobre o Body Positivity é o Estados Unidos e que o Instagram é o website mais acessado do mundo para fazer posts com a hashtag bodypositivity.

A polêmica
“Aceitar seu corpo não quer dizer conformismo” - Alexandra Gurgel, influenciadora e ativista do movimento Body Positivity.
O principal questionamento sobre o body positive é se ele pode funcionar como um gatilho para a obesidade em mulheres, já que sua principal vertente é a aceitação de corpos para além dos estereótipos.
Uma das mais influentes ativistas do movimento body positivity no Brasil, Alexandra Gurgel, declarou em seu Instagram que “aceitar seu corpo não quer dizer conformismo”. De acordo com a blogueira, assim como uma pessoa que está muito abaixo do peso, aquela que está muito acima também se encontra em uma condição de risco da saúde. Aceitar o corpo não é se conformar, é entender que você pode ser feliz e seguir o estilo de vida que você quiser, desde que mantenha uma rotina equilibrada e que preze pela sua saúde.
Alexandra debate a polêmica explicando que aceitação do corpo pode trazer benefícios desde que esteja vinculada ao cuidado e alerta para os riscos de obesidade.
De acordo com a psicanalista Joana Vilhena Novaes, também coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio, “existe uma imensa diferença entre uma pessoa com sobrepeso se amar, e não mais deixar de ir à praia por vergonha de não se encaixar em padrões, e um corpo que mal se locomove e tem uma série de funções orgânicas comprometidas”.
É verdade que existe uma linha tênue entre o discurso do movimento Body Positivity e os riscos à saúde. Da mesma forma que perfis da hashtag Borboletana, mesmo que não intencionalmente, promovem distúrbios alimentares apenas por dissiparem seus estilos de vida nas redes sociais, incentivando garotas que procuram por um refúgio ou inspiração, a hashtag Body Positivity pode promover a obesidade se seu discurso não for bem definido por quem o defende.
Segundo o Código da Classificação Internacional de Doenças - E66 e a OMS - Organização Mundial da Saúde - a obesidade pode se tratar de uma condição patológica e é considerada uma epidemia mundial, trazendo riscos à saúde da população.
Contudo, é preciso entender que o movimento Body Positive não incentiva e não é à favor da obesidade. O objetivo dele é que as pessoas gostem delas e de seus corpos como são, independente da aparência, para evitar preconceitos de qualquer natureza. As ideias de um estilo de vida saudável ou de body positive não precisam e nem devem ser opostas, elas precisam ser integradas.
“Não é se conformar com quem você é e pronto. É entender que ter uma visão positiva sobre você mesma é uma prerrogativa para viver em sociedade”
Alexandra Gurgel, influenciadora e ativista do movimento Body Positivity
Assunto tendência
De olho em tudo o que o mercado publicitário apresenta como inovador, cada vez mais marcas brasileiras têm se apropriado dos assuntos que são tendência para se destacar na tela da TV e nas redes sociais. Temas que eclodiram na imprensa desde 2015, levantando debates políticos Brasil afora, incentivaram o mercado publicitário a investir nos assuntos em alta.
Desde que a Natura - marca que atua há 50 anos no mercado de cosméticos - adotou seu posicionamento “Bem-Estar Bem”, colocando mulheres dos mais variados padrões de beleza em suas campanhas, ela foi reconhecida como empresa pioneira do empoderamento social, e indicada como inspiração para muitas startups do Brasil.
Contudo, não se trata apenas do fato das marcas se apropriarem do body positive como um assunto tendência, mas também da forma como o tema se expande no setor para impactar o público. A psicanalista Joana Vilhena Novaes explica que:
“as diferenças precisam ser tratadas como naturais. Celulite não é lindo, mas é natural, todo mundo tem. É preciso ter uma visão mais real, crítica e, ao mesmo tempo, verossímil”
Em fevereiro de 2019, a pedido do Facebook, a agência de consultoria 65I10 realizou um estudo dos estereótipos utilizados na publicidade brasileira, para justificar a apropriação do body positive como tendência pelas marcas no país.
Em entrevista à Revista Meio & Mensagem, a gerente de Marketing Science do Facebook no Brasil, Isabela Aggiunti, comentou: “nossa indústria publicitária é uma das mais premiadas do mundo, mas, inconscientemente, ainda reforça estereótipos que limitam os papéis de gênero, raça e tipos de corpos. Com essa iniciativa queremos mostrar, por meio de dados e ciência, que incorporar a diversidade nas campanhas não é apenas a coisa certa a se fazer, como pode também trazer ótimos resultados para as marcas”.
“A publicidade é comunicação de massa e, portanto, tem impacto social. Quando mostramos grupos que normalmente são ‘invisíveis’, damos a eles a oportunidade de serem vistos como pessoas comuns que merecem atenção e respeito para suas vidas e seus direitos”
Maria Guimarães, co-fundadora da agência de consultoria 65I10, em entrevista à revista Meio & Mensagem




Ilustração: stockgiu / Freepik
Algumas dicas de como dar início ao processo de visão positiva do seu corpo
1. Não se compare
Cada corpo é um corpo. Seres humanos foram feitos para serem diferentes uns dos outros. Entenda que as diferenças, além de normais, são essenciais para todos
2. Pare de seguir pessoas que te fazem mal
Enquanto não estiver segura da sua opinião, afaste-se dos perfis que te fazem sentir mal. E quando você estiver confiante, notará que eles não fizeram falta alguma na sua vida
4. Procure enxergar os outros de forma positiva também
Quando você se conhecer e passar a gostar de como você realmente é, e não como “deveria” ser (segundo os estereótipos), faça o exercício de olhar as pessoas de forma diferente. Enxergue nelas o lado positivo, entenda que cada corpo é um corpo e é normal sermos diferentes uns dos outros
3. Tenha referências de corpos reais
Fuja dos estereótipos tão difundidos nas redes sociais, que a gente nem sabe se são de verdade ou se passaram por um programa de edição. Veja as pessoas na rua, assim não temos dúvida de como são os corpos reais
5. Tenha paciência com você e com os outros
Tudo é um processo. Tenha em mente que isso não vai acontecer de um dia para outro. Comece aos poucos, enaltecendo o que você mais ama em você, por exemplo
6. Não há regras
Você muda quando você quiser mudar, isso inclui a sua opinião
“No meio do processo é capaz que as pessoas percam amigos, familiares, e pessoas tóxicas, mas tranquilo porque a gente não tem que manter ninguém do nosso lado além de nós mesmas (...) O amor próprio não significa conformismo ou perfeição, pelo contrário, pra mim significa estar em paz com a sua mente, com seu corpo, com quem você é como pessoa” – Thatiane Lovato
Informações coletadas por ferramentas de análise de dados de redes sociais fornecem um panorama de que a hashtag tem crescido cada vez mais, principalmente no Instagram.