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Dados: Twitter e Netlytic
Entenda a fala das borboletanas
Por Sabryna Monteiro e Beatriz Pansani Coletti
Publicado em 18 de novembro de 2019
A hashtag “borboletanas” traz à luz um assunto que merece mais atenção. A Dra. Cláudia Regina, psicóloga do Ambulim, ressalta que é muito importante que se esclareça quais sintomas levam ao diagnóstico dos distúrbios alimentares: “A informação é necessária para que se fale mais sobre isso. Se não é falado, não existe, ou se é falado de forma errada, podem ocorrer falsos diagnósticos ou uma visão estereotipada a respeito dos transtornos alimentares”.
Vale destacar também que a comunicação entre os membros dessa comunidade acontece, muitas vezes, por meio de “códigos” ou siglas, para que leigos neste assunto não compreendam o que é falado nos tweets. Assim, acaba se tornando necessário entender de forma mais profunda alguns desses termos, para ficar por dentro das conversas das #borboletanas.
O que é t.a...
A começar pela sigla “t.a”, que significa transtorno alimentar: segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, transtorno ou distúrbio alimentar caracteriza-se por algum desvio na conduta em relação à alimentação, levando ao emagrecimento em excesso, à obesidade ou a algum outro problema físico (ex: retardo da primeira menstruação em mulheres mais jovens), psicológico (ex: distorção da imagem corporal) e social.

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Suas causas estão ligadas a questões socioculturais a que o indivíduo está exposto, ainda que não se deva descartar fatores biológicos, psicológicos e familiares, como explica a Dra. Maria Alice Fontes, psicóloga formada pela PUC-SP, doutora em Saúde Mental pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp), diretora da clínica Plenamente, em seu artigo “O que são Transtornos Alimentares? Causas, tipos e tratamento”. Além disso, a pressão da sociedade para seguir um padrão de beleza baseado na magreza, aliada à presença de uma baixa autoestima, potencializam o desenvolvimento de algum distúrbio alimentar nos indivíduos.
E afinal de contas, o que significa borboletana?
Uma vez explicado o que é t.a, é importante explorar a etimologia, se é que pode-se assim chamar, da hashtag que dá nome ao movimento: borboletana. A presença da palavra “borboleta” é óbvia, mas por quê? Esse inseto é considerado um animal com a “forma perfeita”, portanto acaba representando o objetivo dos indivíduos dessa comunidade. Agora, o que significa “ana”? Essa terminologia faz alusão a um diagnóstico de distúrbio, a anorexia.
Na página Borboletanas você poderá encontrar mais sobre o tema.
Anorexia
Este transtorno alimentar se manifesta através de alguns sinais, dentre eles o medo excessivo de ganhar peso ou se tornar obeso, mesmo estando abaixo do peso ideal, ou seja, com o paciente apresentando menos de 85% do peso esperado para sua idade e altura. Este quadro é resultado de uma dieta extremamente restritiva, que começa apenas com a redução dos alimentos considerados “calóricos” e, à medida que o quadro vai evoluindo, torna-se cada vez mais reduzida. O auge da doença é quando a paciente faz jejuns demasiadamente longos - chamados de no food (n.f), pelas borboletanas.

Imagem do Twitter - Identidade da usuária preservada
“A anorexia”, comenta dra. Cláudia Regina, “é um transtorno alimentar que não passa despercebido. Ele pode ser notado fisicamente”. Quem é diagnosticado com ana, por visar a perda de peso, apresenta um corpo excessivamente magro, no qual é possível até se ver a estrutura óssea.
“Mas não é uma questão de medidas. É o número na balança que importa. Por mais magra que a paciente esteja, ela sempre acha que pode conseguir mais. Para eles, é uma questão de autocontrole”, comenta a psicóloga, que é voluntária do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Ambulim).
A diminuição da massa corporal também é um sinal de diminuição de nutrientes, destaca a nutricionista comportamental Silvania Carvalho, levando o paciente a apresentar algumas alterações metabólicas. São elas: Amenorreia (ausência de, pelo menos, três ciclos menstruais) em mulheres pós-menarca (ou retardo da primeira menstruação para as pré-adolescentes), penugem fina sobre a pele, diminuição da pressão arterial, diminuição do ritmo cardíaco, respiração lenta de forma anormal, inchaço nos pés e pernas, desequilíbrio eletrolítico, e outras doenças psicológicas, podendo levar à morte.
Este t.a atinge 1% da população mundial feminina, de acordo com o diretor de Psiquiatria de Transtorno Alimentar da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), Adriano Segal. Sendo que, a anorexia mata mulheres, entre 15 e 24 anos de idade, 12 vezes mais do que qualquer outra doença.
Além disso, segundo dados da OMS, 24% da população de países desenvolvidos apresenta algum distúrbio alimentar. Dentre os principais, a “ana”, como é chamada pelas borboletanas, ocupa o terceiro lugar, logo após o Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) e a Bulimia. Como mostra o infográfico abaixo.

Recovery: Uma tentativa de salvação
"É um processo bem delicado e complicado. Eu diria que é até mais difícil do que entrar no mundo dos transtornos alimentares" – S.
Usuária da hashtag borboletana que não quis se identificar
Outra prática comum, além do no food, entre quem enfrenta a ana são os momentos de recovery. Nestes períodos há uma “pausa” no processo da doença, ou seja, a alimentação se torna menos restritiva - podendo ocorrer até episódios de compulsão alimentar. E o controle do peso é afrouxado. Essas são fases, como a própria tradução do nome diz, para a recuperação física e, até, psicológica dessas pessoas, que, depois, acabam voltando às práticas comuns da anorexia, podendo inclusive agravar o quadro.
Uma de nossas fontes, que preferiu não ser identificada, conta que na maioria da vezes o recovery é uma tentativa real de recuperação, mas o índice de desistência no meio do processo é alto. “É algo que pede muita força, emocional e física, boa vontade, esforço e paciência, e isso acaba sendo estressante. Estressante ao ponto de alguns desistirem e acharem que não conseguem continuar”, explica.Uma de nossas fontes, que preferiu não ser identificada, conta que na maioria da vezes o recovery é uma tentativa real de recuperação, mas o índice de desistência no meio do processo é alto. “É algo que pede muita força, emocional e física, boa vontade, esforço e paciência, e isso acaba sendo estressante. Estressante ao ponto de alguns desistirem e acharem que não conseguem continuar”, explica.

Imagem do Twitter - Identidade da usuária preservada
Um sentimento muito compartilhado entre as usuárias de hashtag é a culpa pelo ganho de peso durante o período de recovery. Essa sensação pode ser o gatilho para o desenvolvimento de outro t.a, a bulimia.
Bulimia
Texto compilado a partir de falas das fontes usuárias da hashtag e dos profissionais entrevistados
Não necessariamente esse distúrbio alimentar está atrelado à anorexia, mas quando isso acontece é geralmente durante esse período de tratamento. Um paciente bulímico apresenta o seguinte comportamento: episódios de compulsão alimentar, ou seja, a ingestão de uma grande quantidade de comida em um curto intervalo de tempo, seguida de métodos compensatórios induzidos para evitar o ganho de peso.
Para que um indivíduo seja diagnosticado com bulimia – ou mia como é conhecido, o psicólogo, nutricionista ou psiquiatra deve identificar obrigatoriamente, segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, este outro sintoma atrelado ao primeiro: um sentimento de falta de controle sobre o comportamento durante o episódio de compulsão (incapacidade de controlar o tipo e a quantidade de alimento ingerido). Para a psicóloga Maria Alice Fontes, autora do artigo “O que são Transtornos Alimentares? Causas, tipos e tratamento”, todavia, a escolha dos alimentos não é aleatória, geralmente são de alto teor calórico, como doces e frituras, os classificados como “proibidos” para quem sofre com t.as como ana e mia.
Outros sintomas apontados pelo Manual são: episódios de compulsão e compensação ao menos duas vezes por semana e durante três meses, autoimagem influenciada pela forma e peso corporal, e não ocorrer exclusivamente durante crises de anorexia.

Imagem do Twitter - Identidade da usuária preservada
A bulimia pode ser divida em dois “tipos”, a partir dos atos compensatórios: purgativo e não-purgativo. No primeiro, o indivíduo induz o vômito e faz uso indevido de laxantes, diuréticos e enemas, enquanto no segundo, a pessoa utiliza outros comportamentos compensatórios inadequados, como jejuns ou exercícios físicos em excesso.
Esse é um transtorno alimentar mais silencioso, porque, diferente da anorexia, não há uma perda significativa de peso, como a psicóloga Cláudia Regina observa: “geralmente, quem tem bulimia consegue esconder melhor sua doença, porque não dá para ver, como na anorexia. Esses pacientes, em sua maioria, apresentam um peso normal”, além, é claro, da própria pessoa encobrir essas práticas, normalmente, por vergonha.
Durante a apuração da reportagem, percebemos que essa “vergonha” é um ponto muito delicado para as borboletanas, o sigilo é uma coisa essencial. Elas mantêm seu anonimato até em seus perfis no Twitter, como já foi destacado anteriormente, e por isso, não revelamos suas identidades. Uma das meninas com as quais conversamos destacou: “Eu me sinto meio exposta quando uso as tags e algumas palavras-chave. Parece que vão me descobrir a qualquer momento e eu prezo muito pelo sigilo da minha identidade”.

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Assim, as fontes explicam também o porquê da linguagem codificada e dos perfis fakes. Para entender melhor esse universo, listamos e decodificamos mais algumas dessas expressões por aqui:
p.i = Peso inicial
Peso com o qual a pessoa iniciou-se na doença, geralmente colocado na bio dos perfis para mostrar a evolução da perda de peso.
m.f = Meta Final
Peso no qual o dono do perfil quer chegar. É mutável ao longo do processo da doença e tende a diminuir cada vez mais. É colocado na descrição do perfil para servir de inspiração ao longo do processo.
p.a = Peso atual
Assim como o p.i e a m.f,, é colocado nas bios para mostrar a diminuição da massa corporal e quanto falta para a meta final.
edtw = Eating Disorder Twitter
Sua tradução para o português fica “Twitter de transtorno alimentar”. É colocado como informação da descrição do perfil, para identificar quem faz parte da comunidade. Pode também ser usado como hashtag para identificar os tweets relacionados a t.a.
thinspo = Thinspiration
Do inglês, Inspiração Magra. São usados em imagens, geralmente, dos corpos ditos ideais para essa comunidade.